quinta-feira, 19 de abril de 2018

Mob Psycho 100


Em 2015, foi lançado um anime que chamou a atenção de todos, desde fãs dessa mídia até pessoas que não assistiam mais animes há anos, chamado One Punch Man, uma paródia às inúmeras animações de luta como Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho, conhecidos como shounen. O anime fez sucesso por seu humor que tira sarro dos clichês do gênero com um personagem apelão que derrota todos seus inimigos com um soco só, enquanto ainda conta com um enredo característico de obras do estilo.

Seu êxito fez com que seu autor, ONE, viesse ao conhecimento público. Foi então que, em 2016, decidiram adaptar seu outro mangá em formato de animação. Apesar de não ter conseguido replicar o amplo sucesso de One Punch Man, Mob Psycho 100 foi um dos animes mais prestigiados de seu ano, graças a sua história que junta o sobrenatural com temas pessoais, lutas eletrizantes e visual estilosíssimo.


PERSONAGENS

O protagonista, Shigeo Kageyama, apelidado de Mob, é quem dá nome a obra. Ele é um garoto comum do ensino médio, sem características que o façam se destacar em meio ao ambiente escolar. Uma grande diferença, porém, é que tem poderes sobrenaturais. Ele pode levitar objetos e exorcizar espíritos. Mas mesmo com essa incrível característica, o garoto não se considera especial e sente que é um zé ninguém.


Mob é o aprendiz do Reigen Arataka, um rapaz de quase 30 anos que se autoproclama o maior paranormal de todos os tempos. É dono de uma clínica que lida com problemas relacionados a espíritos e fantasmas, mas a verdade é que ele é apenas um charlatão com uma tremenda lábia que faz todos acreditarem que realmente tem poderes.


O irmão caçula de Mob, Ritsu Kageyama, é o seu oposto, pois é bonito, popular e esperto, mas não é aquilo que mais desejava ser: um paranormal. Ele admira imensamente seu irmão por seus poderes, apesar de no fundo sentir um pouco de inveja.


Em uma de suas sessões de exorcização, um dos espíritos que Mob derrota, o Covinhas, acaba se tornando um pseudo-aliado seu. Digo pseudo porque ele se mostra prestativo, mas seus pensamentos são um tanto ambíguos. Não dá pra saber quando ele vai virar as costas e aprontar novamente. Pelo menos ele é engraçado e não se conforma com a falta de importância que o Mob dá aos seus poderes.


Outro paranormal que dá as caras depois de alguns episódios é o Teruki Hanazawa. Diferente do Mob, que evita usar seus poderes em outras pessoas, o Hanazawa se aproveita de suas habilidades sobrehumanas para tirar proveito dos mais fracos, especialmente em brigas, e se acha o rei da cocada preta por conta disso.


Esse é o elenco de personagens principais, mas alguns dos secundários também deixam sua marca. O grupo mais memorável destes é o Clube de Fomento Corporal que o magrinho do Mob decide fazer parte, formado por vários caras bombados com o dobro do tamanho dele, mas que são gente fina e o ajudam sempre que está em apuros.


Antes de entrar nesse clube, o Clube de Telepatia tentou persuadi-lo para que fizesse parte desse, apesar de que tudo o que fazem é só ficar vadiando. Ele é liderado pela Tome Kurata, uma garota com uma personalidade explosiva que realmente se interessa por telepatia, mas nunca se aprofundou no assunto, pois prefere passar o tempo jogando e comendo besteira.


Outra garota que aparece constantemente na vida do Mob é a Ichi Mezato, uma jornalista que presenciou o garoto exorcizando o Covinhas e o persegue sem parar, afim de que dê uma entrevista a respeito de suas habilidades.


Uma das vítimas do poder do Hanazawa foi o Josuke Higashitaka Tenga Onigawara e sua gangue, um valentão que também se acha o dono do pedaço e que pode resolver tudo na porrada.


Mais à frente no anime é introduzida uma organização que pretende usar os poderes paranormais dos garotos para seus fins perversos. É quando conhecemos mais alguns adolescentes com poderes, apesar de serem fraquinhos se comparados com o Mob e o Hanazawa, a não ser que você considere acender uma faísca no dedo algo incrível.


ESTILO

O aspecto que Mob Psycho 100 mais se destaca é em seu visual incrivelmente estilizado. É só assistir a abertura que já terá um belo gosto da inventividade dessa animação, cheia de elementos em tela com diferentes estilos visuais, trechos que fazem uso fantástico de morphing, o seu ritmo frenético e uma música deveras cativante (você pode dizer que a música não tem nada a ver com o visual, mas agrega pacas).


Se você um dia foi atrás do material original de One Punch Man, sabe que o estilo do autor está longe de ser refinado. Parecem desenhos toscos de uma criança que está praticando seus primeiros rabiscos. Mas o conteúdo era de fato interessante, então foi feita uma adaptação para mangá com um desenho profissional aos moldes de outros trabalhos do gênero shounen. Foi esse traço que a adaptação em anime seguiu.

Comparação do desenho original de One Punch Man às adaptações em mangá e anime.

Já o estúdio BONES, responsável pela adaptação de Mob Psycho 100, optou por não modificar o traço rudimentar da obra original, e sinceramente, acho que isso agregou ainda mais no estilo diferenciado do anime. A simplicidade do design dos personagens tem um charme inegável – até as meninas conseguem ser fofas mesmo com um rosto idêntico ao do Mob – e é mais maleável às diversas distorções de traço que o anime explora, como nas expressões faciais e sequências de ação.



E por falar em sequências de ação, rapaz… As lutas desse anime são um pitéu. Eu não sou a melhor pessoa para analisar esse tipo de coisa, já que meu estilo favorito de animes são aqueles mais "pé no chão", mas o fato de que uma de suas lutas venceu o prêmio de Melhor Luta do Ano no Crunchyroll Awards de 2016 já fala por si só sobre o trabalho incrível desses combates que exploram cada metro quadrado do ambiente em que se passam, transmitem uma sensação de peso absurda em cada um de seus ataques, não se prendem a uma única maneira de desenhar os personagens e os elementos em tela, e trazem um verdadeiro show de luzes e efeitos.



Algo que aumenta a euforia dessas lutas é o contador de porcentagem, que vai ascendendo gradativamente até chegar ao 100%, quando o Mob desfere todo o seu poder destruidor. Sério, parece que é um contagem para a nossa explosão, porque é impossível não ficar ansioso ao ver o personagem passando apuros, sendo levado ao seu limite, até que o contador se esgota e BOOM, um grande espetáculo ocorre.


Mas algo mais fascinante que a animação das lutas são os trechos animados com pintura a óleo, algo pouquíssimo comum de se ver em animes. Geralmente usam artes nesse estilo como transição de cena ou encerramento de um episódio, mas aqui elas aparecem esporadicamente ao longo dos episódios. Não tem nada mais delicioso do que ver as pinceladas de tinta se mexendo entre cada frame. Alguns desses trechos contam com a técnica de morphing, deixando-os ainda mais fantásticos, pois o mérito artístico de transformar um elemento em outro sem ser digitalmente é gigantesco.




E vamos dar crédito onde é válido, né? A artista resposável por esse trabalho meticuloso é a Miyo Sato, que também animou todo o encerramento fazendo uso dessa técnica de pintura a óleo sobre painéis de vidro, dessa vez adicionando rotoscopia ao conjunto. Nessa entrevista aqui, ela fala um pouco sobre o seu processo de animação e sobre sua carreira. Espero que possamos ver mais de suas habilidades incríveis no futuro, pois eu fiquei legitimamente fascinado por seu trabalho.


Além de seu visual distinto, outra virtude do anime é o seu humor. Absolutamente todos os seus personagens são divertidos, sem exceção. Destaques ao próprio Mob com sua personalidade muitas vezes inexpressiva, o que torna marcantes seus momentos mais expressivos, como seu entusiasmo em se tornar mais forte e suas reações à paixonite que sente por uma menina; o Covinhas com a sua ironia e personalidade imprevisível, cujo humor é aumentado graças à sua voz áspera com um tom sarcástico; e ao Clube do Fomento Corporal, porque caras marombas entusiasmados que amam seus músculos sempre são divertidos.


Até o design de alguns dos personagens chega a ser cômico, como o dos irmãos telepáticos com seus rostos em formato de bola e quadrado – sério, um deles é basicamente o Steve do Minecraft. O outro carinha que sempre está junto deles também é engraçado com seu rosto largo, queixo pontudo e topete estilo Elvis.


Mas o meu favorito de todos é o Reigen. O carisma desse cara é imensurável. É hilário como ele inventa trocentas maneiras de enganar seus clientes e até mesmo alguns vilões de que é o maior paranormal da cidade, com uma lábia tão grande que não tem nem como desconfiar. A sacada do autor de deixá-lo superpoderoso no clímax foi uma ideia de gênio, porque não há nada mais satisfatório do que vê-lo arregaçando os inimigos presunçosos enquanto faz seus comentários sarcásticos.

O grande poder paranormal de Reigen Arataka: PHOTOSHOP!!!

O momento mais delicioso do anime.

TEMAS

Se formos compará-la ao outro trabalho famoso do autor, One Punch Man, eu considero Mob Psycho 100 uma obra mais rica. Não me entendam mal, OPM é um ótimo anime, bem divertido, mas ele se resume basicamente a um cara que derrota todos seus inimigos com um só soco, cujo único conflito do personagem é a sua insatisfação com o quão apelão que é. Já os personagens de Mob Psycho trazem consigo conflitos mais palpáveis, com os quais podemos nos identificar.

O Mob, mesmo com a distinção de ser paranormal, se considera um zero à esquerda por não ser bom nos estudos, popular ou atraente. Seus poderes já causaram estragos acidentais, o que faz com que se questione constantemente se estes são uma virtude ou um problema. Ele precisa reprimir suas emoções para evitar que situações assim se repitam, então esse dilema acaba causando algumas crises de identidade. O fato dele ser uma pessoa tímida e amável que se preocupa com o bem estar dos outros o torna um personagem fácil de se apegar.


O Ritsu é um daqueles casos do caçula que sente inveja das habilidades do irmão maior. Ele é prestativo e sempre mostra um sorriso ao Mob, mas no fundo se remoe por não ter poderes paranormais. Não importa se é popular, bonito e estudioso – tudo o que ele quer são os poderes do seu irmão, um anseio que acaba por cegá-lo momentaneamente ao desenvolver da história. Um caso assim não se aplica somente a irmãos, mas também a amigos próximos que não lidam devidamente com o fato de um deles ser melhor do que o outro. O curioso é que o Ritsu é tudo aquilo que o Mob deseja ser, o que mostra como os valores de felicidade nunca são os mesmos de pessoa em pessoa.

Após os eventos que se desenvolvem em decorrência dos poderes que desenvolve, o Ritsu descobre como seus valores de felicidade eram deturpados.

Um dos amigos do Ritsu e presidente do grêmio estudantil, o Shinji Kamuro, é similar ao irmão do Mob no sentido de que sente inveja da vida alegre que todos ao seu redor aparentemente vivem, enquanto ele sofre em casa por conta da pressão desmedida que seus pais colocam em cima de si, o que afeta seu psicológico ao ponto de dormir em meio ao lixo. Ele abusa de sua autoridade para ventilar sua frustração, prejudicando aqueles que não tem a possibilidade de se defender.


O Reigen pode ser um charlatão de marca maior, mas é uma pessoa com ótimos valores. O conflito do Mob de não usar seus poderes em pessoas mesmo quando está em apuros é algo que aprendeu com seu mentor. Para ele, poderes paranormais são apenas mais uma habilidade pessoal, assim como ser bom em matemática, saber tocar piano ou ter condicionamento físico para correr uma maratona. Não é algo que a pessoa deva usar para se achar superior à outra.

A relação entre esses dois é um dos maiores pontos positivos da obra.

Eu nunca assisti qualquer animação que tratasse poderes dessa maneira. E não há nada mais comum no mundo do que pessoas que se acham no direito de menosprezar as outras por conta de suas habilidades. Um personagem assim é o Hanazawa, que precisa de um choque de realidade e de uma baita sova para aprender que não é melhor do que ninguém. Os integrantes da organização Garra não se distanciam muito disso, com pensamentos de que esses poderes podem conquistar o mundo, não muito diferente dos poderosos da nossa realidade com seus poderes do tipo financeiro ou bélico.


Outras críticas pertinentes ao nosso mundo são feitas, como à religião durante o primeiro encontro com o Covinhas. O espírito se apossa de um padre e decide criar uma religião a fim de ser visto como um Deus, uma que cega todos seus fiéis de seus problemas e os faz rir sem parar. É basicamente como eu enxergo qualquer religião, com a diferença de que a maioria sequer faz as pessoas rirem, apenas as dão falsas esperanças.



CONCLUSÃO

Mob Psycho 100 é um daqueles animes que fui assistir esperando um show de cores e lutas com um bom senso de humor e acabei recebendo muito mais. Enquanto ele tem tudo isso, a dosagem é maior e mais impressionante do que imaginava, com destaque especial aos personagens bem desenvolvidos que agregam enorme valor à obra com seus problemas paralelos à nossa realidade, uma surpresa que me pegou desprevenido.


por Vinicius "vini64" Pires

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