quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

K-ON!


Como podem perceber por meus reviews recentes, me interessei pelos animes do estúdio Kyoto Animation, popularmente conhecido como KyoAni. Seu trabalho de animação impecável e histórias focadas nas vidas diárias dos personagens chamaram minha atenção, então durante alguns meses estarei na missão de assistir todas as obras do estúdio. Pretendo escrever a respeito da grande maioria aqui no blog, independente se eu adorar ou odiar.

A terceira série que assisti talvez seja a mais famosa deles, visto que é amplamente conhecida tanto por fãs de animes quanto por leigos no assunto. Estou falando de K-ON!, sim, a animação de 2009 dita ser sobre "garotas fofas tomando chá e comendo doces" que fez um sucesso estrondoso e deixou uma marca permanente na indústria de animes. Mas como algo com uma premissa banal dessas pode ter sido tão bem sucedido? Será mesmo que a série é apenas sobre meninas fofas sendo fofas?


PERSONAGENS


K-ON! nos apresenta a vida de cinco garotas que participam do Clube de Música Leve, tocando um pop rock capaz de agradar a toda a escola. Elas formam uma banda chamada Ho-kago Tea Time, cuja tradução é Hora do Chá Pós-Aula. Esse nome diz muito sobre o grupo, pois o que mais fazem no clube é tomar chá e comer bolos saborosos. Treinar fica em segundo plano....ou talvez até em terceiro plano.


 A vocalista e guitarrista principal é a Yui Hirasawa, uma garota atrapalhada, extrovertida, um tanto desleixada, amante de doces e coisas fofas, que só foi aprender a tocar seu instrumento ao entrar por acidente no clube! Apesar disso, ela se apaixonou pelo instrumento, no sentido literal, pois ela paparica, veste e até mesmo dorme com a guitarra, chegando a apelidá-la de Giita.



 A baterista e presidente do clube se chama Ritsu Tainaka. Energética e divertida, ela raramente consegue ficar muito tempo parada e adora tirar sarro das suas amigas, levando bastante porrada no processo. Sua maior inspiração como instrumentista é o Keith Moon, da banda The Who, então gosto musical bom ela tem.



 A terceira integrante é a Mio Akiyama, baixista e também vocalista. Ela é tímida e se assusta com facilidade, mas é linda e carismática, conquistando corações por todo o colégio ao ponto de criarem um fã clube seu. Apesar de ter a mesma idade das outras, ela é a mais madura do grupo, procurando estabelecer ordem sempre que fogem muito do objetivo, apesar de não conseguir na maioria das vezes e ceder à tentação da hora do chá pós-aula.


Notem a atenciosidade da animação em mostrar os movimentos necessários para que ela consiga ajustar o baixo em seu corpo. É incrível.

A tecladista é a Tsumugi Kotobuki, apelidada de Mugi pelas garotas. Uma moça doce e afável, é a responsável pelas distrações do clube em não conseguir praticar, pois é quem traz os mais deliciosos chás e doces ao clube. Vinda de uma família riquíssima, ela tem um fascínio fora do comum pelo ordinário, ou seja, por tudo que diz respeito à vida mundana da classe média-baixa, como ir a um fast food, visitar uma lojinha de 1 real, ter um trabalho de meio período, entre outras coisas.

Qualquer coisinha, por mais pequena que seja, a deixa entusiasmada com facilidade.

Depois de um ano inteiro com o clube, as garotas fazem de tudo para encontrar uma quinta integrante. A apresentação incrível que fizeram na recepção dos calouros chamou a atenção de uma garota do 1º ano e então a banda encontrou seu novo membro – Azusa Nakano, guitarrista base. Mesmo sendo a caçula, ela tenta seguir os passos da Mio em manter a seriedade e praticar com a banda, mas é só colocar orelhas de gato nela e levar uns abraços bem apertados da Yui que essa fachada da Azunyan se dissipa.


 Todo clube de escola precisa de um professor orientador. No caso do Clube de Música Leve, a profª Sawako Yamanaka ficou encarregada dessa função, uma mulher bela e simpática que tenta parecer ser diligente e comportada, qualidades que realmente dizem respeito a sua pessoa, mas existe um lado de sua personalidade que só as garotas da banda conhecem. Um lado insano e selvagem, de quando ela foi integrante do mesmo clube há anos atrás, só que nessa época a música que tocavam estava longe de ser leve – era um heavy metal avassalador capaz de deixar até o Pantera no chão. Sawako era a guitarrista e fritava o instrumento até com os dentes.


Um de seus maiores passatempos é fazer as garotas vestirem fantasias embaraçosas.

A Yui tem uma amiga de infância que a acompanha em todas as escolas que estuda desde o pré, a Nodoka Manabe. O oposto de sua amiga avoada, ela é uma garota inteligente e estudiosa, membro do conselho estudantil que se torna presidente deste no 3º ano. Apesar da personalidade contrastante, Nodoka faz de tudo para ajudar a Yui e seu clube sempre que passam por dificuldades. Se não fosse por ela, a srta. Hirasawa teria um giz de cera em seu estômago até hoje.


 Outra pessoa próxima da Yui cuja personalidade é o inverso é sua irmã mais nova, Ui Hirasawa. Ela é uma dona de casa fantástica! Enquanto sua irmã fica esparramada no chão igual uma batata, Ui lava as roupas, organiza a casa e prepara a comida. Mas se tem algo que sabe fazer melhor do que cuidar da residência é amar sua irmã. O afeto que sente é impossível de ser medido, não há nada que a deixe mais feliz do que vê-la sorrindo e nada a deixa mais preocupada do que a cabeça de vento de sua irmã mais velha, tanto que começou a frequentar seu mesmo colégio para ficar sempre próxima dela.


A julgar pelas personalidades, é como se Ui fosse a irmã mais velha e Yui a caçula.

Ao entrar na escola, Ui e Azusa caíram na mesma sala. O grupinho delas inclui mais uma garota, Jun Suzuki, uma mocinha alegre e inquieta com um senso de ironia afiado. Ela cogitou entrar para o Clube de Música Leve antes da Azusa, mas a excentricidade do grupo não deixou uma impressão lá muito positiva, o que é de se esperar de qualquer pessoa com o mínimo de sanidade. Claro que ela se arrependeu depois ao saber que a Azusa tomava chás importados todo dia, mas aí já era tarde demais.


 As duas temporadas cobrem 3 anos da vida dessa galera toda. Apesar do foco principal ser nas garotas da banda, as outras personagens que mencionei também se destacam com frequência em inúmeros momentos, chegando a terem episódios centrados nelas. Até alguns rostos de mínima importância são explorados de maneira interessante, como as meninas do Clube de Ocultismo. Na primeira temporada, um episódio as mostra no 1º ano atuando de forma humilde, ainda no início de suas atividades. Já na segunda temporada as vemos no 3º ano, agora com um visual completamente diferente e uma sala toda produzida com o tema do clube.


Dá pra fazer um paralelo da evolução delas com os rostos familiares que conhecemos, mas que vemos com menos frequência, tornando as mudanças mais perceptíveis.

ESTILO

Quando disse que K-ON! deixou uma marca permanente na indústria dos animes me referia ao fato de que foi essa obra que popularizou o estilo moe, usado para definir produções com foco em personagens extremamente fofas, muitas vezes agindo de forma ingênua e boba. Acredito que apenas vemos as garotas ensaiando ou tocando pra valer em uns 30% da série – os outros 70% são reservados para as mais variadas situações da vida diária delas, como cuidar de uma tartaruga, tentar se concentrar para um prova, arranjar um trabalho de meio período, ir à praia ou a um festival, fazer uma guerra de travesseiros durante uma viagem, participar de uma maratona e muito, MUITO mais.

E temos momentos devastadores como esse. Um ato de crueldade impiedoso.

Devo dizer que, de início, a série não estava me agradando. Esse é um problema da primeira temporada – enquanto a segunda cobre 1 ano em 26 episódios, a anterior cobre 2 anos em 13. Isso faz com que tudo aconteça num ritmo indevidamente acelerado, o que me impossibilitou de absorver o conteúdo adequadamente, especialmente no que se refere à evolução das habilidades de guitarrista da Yui, abordada de maneira superficial.

Contudo, a amizade dessas meninas é retratada tão honestamente que é difícil não se deixar contagiar pela positividade desse relacionamento. É uma obra tão leve e agradável de assistir que te faz sentir um conforto enorme, além de te deixar com um sorriso no rosto durante todos os episódios. Eu entendo pessoas não gostarem de K-ON!, afinal, esse estilo não agrada a todos, mas como alguém pode odiar esse anime vai além da minha compreensão. Tem que ser muito sem coração.


 A série é pouco realista no sentido de não existirem momentos de conflito e drama, mas esse não é seu propósito. A obra foi feita com a intenção de te divertir, independente de quais problemas você esteja passando na vida. É uma forma de escapismo da dura realidade, mas uma que pode te ajudar a enfrentá-la com a melhor arma possível – um sorriso no rosto. Até aí você pode argumentar que qualquer série de comédia cumpre esse propósito, mas K-ON! se diferencia dessas por seu poder sentimental 
 o vínculo entre as garotas.

Apesar de ser completamente aceitável uma pessoa amar o anime por seu humor e personagens fofas, há muitas nuances por baixo dos panos que tornam essa obra tão especial. Em K-ON!, um momento de silêncio diz muito mais sobre um personagem do que diversos minutos repletos de falas. Um olhar, um sorriso ou um simples gesto são capazes de revelar tudo aquilo que se passa em sua cabeça. É nesses detalhes que o realismo da obra pode ser encontrado.



Até mesmo o mais ingênuo dos roteiros tem um propósito, por mais sutil que seja, como por exemplo o episódio em que a Mugi deseja apanhar das meninas. Avaliando superficialmente é apenas um enredo bobo e divertido, mas essa sua súbita vontade parte do anseio de querer ter mais contato físico com as garotas, pois ela percebe como isso as torna mais próximas umas das outras. É possível sentir como as personagens de K-ON! são genuinamente humanas, algo que poucas animações conseguem transmitir com tamanha fidelidade.

Aqueles que reclamam da falta de realismo falham em perceber a delicadeza de inúmeros momentos que nos fazem enxergar as personagens como pessoas igual a nós, como na cena abaixo. Ao dormir na casa de um amigo(a) na infância ou adolescência, quem nunca continuou conversando e rindo depois de apagadas as luzes? Uma cena simples, mas relacionável, realçada pelo silêncio da noite e por risadas pausadas, sem contar aquela risada falhada de porco que a Mugi espontaneamente solta. Um momento executado tão naturalmente que é como se fosse uma gravação da vida real e não uma cena de uma animação.



Mas nada disso que mencionei seria possível se não fosse o trabalho excepcional de um dos principais cargos na produção de uma animação.

DIREÇÃO

K-ON! superou minhas expectativas muito além do que imaginei, mas o aspecto que mais me fascinou foi a direção. Eu jamais pensei que um anime com uma proposta simplória dessas teria uma direção tão delicada e cheia de sutilezas, mas assim que é o trabalho da diretora Naoko Yamada. Ela não hesita em humanizar as personagens ao explorar de maneira formidável o espaço que estão inseridas e sua linguagem corporal.

Até o detalhe mais mínimo, como aquela joaninha no fio, tem sua finalidade  nesse caso, representar o ambiente leve e agradável que é a sala do clube das garotas.

As cenas que disponibilizei na seção anterior são ótimos exemplos da maestria da direção de Yamada. Essa a seguir também é. Os planos que mostram o colégio vazio, mesas sem ninguém, um guarda-chuva encostado na parede, uma garota preparando seu equipamento musical e a caminhada em direção à escola, nos ambientam, de forma sensível, nessa manhã agradável – reforçada pela leve iluminação de início de dia – que vem a ser o primeiro dia de aula das garotas em seu último ano. Mas o show fica por conta da performance improvisada da Yui, com enquadramentos que exploram sua expressão corporal e transmitem com excelência o estado emocional da personagem.



Outro exemplo fantástico pode ser encontrado nestes planos pós-aula que a série tem aos montes. A sala vazia, as garotas conversando com a iluminação do sol se pondo... É fácil de se sentir ambientado no momento, especialmente nesse caso, logo após um festival que movimentou a escola inteira, em que todo mundo se desgastou. Então elas estão ali, conversando e descansando depois de tanto esforço. É tão pacífico... Um plano que não deve durar nem 3 segundos direito consegue transmitir todas essas sensações.


 Já falei isso anteriormente, mas volto a reforçar – um dos aspectos mais fascinantes da série são os enquadramentos que exploram a linguagem corporal delas. Em muitos momentos nos é mostrado o que tal personagem está sentindo por meio de pequenos trejeitos, como uma inquietação nos pés, uma olhada para o lado, movimentos com as mãos... Não é só por expressões faciais que as pessoas expressam seus sentimentos e K-ON! soube abordar isso magistralmente.



 Claro, o trabalho de animação acima da média da KyoAni também é de suma importância em agregar mais qualidade à obra. O gif abaixo contém aqueles preciosismos de movimentação que eu amo. Observem como o levantar dela é minuciosamente animado com tamanho detalhe e realismo. Esse estúdio é mestre em animar tais movimentos triviais. Outros estúdios provavelmente cortariam para o close up no rosto dela assim que começasse a se levantar, enquanto aqui vemos o movimento completo.



 E segue outro exemplo disso, dessa vez com uma atuação transbordando de expressividade. Observe bem seu olhar e sua boca. Sério, isso chega a me dar calafrios. São poucos os estúdios que conseguem animar atuações tão convincentes e expressivas assim, ao ponto de você conseguir sentir as emoções da personagem sem nem precisar ouvir o que ela está falando.



 A direção impecável de Yamada é o principal fator que possibilita a nossa percepção de como as personagens são seres humanos vivendo suas vidas diárias, assim como nós, e permite que fiquemos familiarizados com o ambiente que vivem, como se fossem lugares que já visitamos um dia.


MÚSICA

Uma coisa que as pessoas precisam ter em mente ao assistir K-ON! é que não se trata de uma série sobre música, mas sobre amizade. O foco é na interação entre as garotas e no desenvolvimento de suas personalidades. Mas claro que a importância da música em suas vidas, assim como na de todos nós, é imensurável, pois é o laço que as mantém conectadas com tamanha sinergia.


 Mas antes de abordar as canções que elas tocam durante seus 3 anos colegiais, falarei sobre as temas de abertura e encerramento. Todas elas – ao todo 8, se contar o filme – são fantásticas e absurdamente cativantes. Eu poderia reservar um parágrafo para cada uma delas, mas gosto quase que igualmente de todas. Destaques especiais para a seção de Cagayake!GIRLS em que cada integrante fala seu nome, o solo de guitarra fritador de GO! GO! MANIAC, a orquestra de sonoridade fofa de Ichiban Ippai e a atitude cool de Don’t Say Lazy.


Contudo, se tem uma que merece um parágrafo individual é a terceira abertura, Utauyo!! MIRACLE. O que a torna tão especial, além da música em si, é a animação que a acompanha. É como se fosse um vídeo produzido pelas próprias meninas, com elas apresentando a si mesmas e seus instrumentos, e tocando para a classe, além de imagens que as mostram fazendo aquilo que sabem fazer de melhor – se divertir. Essa abertura é a que melhor representa o espírito da série, a música emana uma positividade energizante que sempre me deixa com vontade de fazer os gestos da Yui quando a escuto na rua. E esse sorriso dela seria capaz de colocar fim em uma guerra.



As animações dos encerramentos também merecem um parágrafo. São como se fossem clipes super produzidos de artistas famosos, com direito a diversos efeitos especiais e figurinos estilosos. Mas o que mais me chama a atenção neles é como a Ritsu posa de garota metida, contrastando completamente com a personalidade real dela.



No caso de K-ON!, não são apenas aberturas e encerramentos que te recordam da série ao escutá-las no dia-a-dia, mas também músicas que as próprias garotas tocam. São canções que representam suas personalidades e momentos inesquecíveis de suas vidas, compostas de corpo e alma.

Sempre que escuto as músicas da Ho-kago Tea Time um enorme sorriso se abre em meu rosto, pois elas capturam lindamente a essência da química entre essas meninas que torna a amizade delas tão especial. O som da banda é um pop rock com influências de punk e hard rock, com letras um tanto, digamos, distintas do que você imagina ao ouvir o instrumental. Quase todas as canções falam sobre amor, comida e, claro, do delicioso combo de chá e doces que deu nome ao grupo.


É difícil não ficar feliz com a aura alegre que suas músicas emanam. Pure Pure Heart e Watashi wa Koi no Hotchkiss com suas letras de amor melosas são a cara da Mio, Curry Nochi Rice e Gohan wa Okazu são como declarações das meninas ao amor que sentem por curry e arroz, enquanto Fude Pen ~Ball Pen~ é literalmente uma carta de amor a uma caneta que está sendo usada para escrever uma carta de amor. Garanto que você nunca leu a palavra amor tantas vezes em um único parágrafo como nesse :P



 Nem todas as músicas da banda são tocadas na série. Algumas só podem ser escutadas no álbum de estúdio Ho-kago Tea Time II, lançado após o término da segunda temporada. Um detalhe que considero fantástico é que alusões a algumas dessas canções são feitas ao longo do anime – alguns trechos das letras são mostrados durante as reuniões das meninas para pensar em músicas novas (Fuyu no Hi [ep. 13 temp. 1], Tokimeki Sugar [ep. 7 temp. 2]) e uma delas, Honey Sweet Tea Time (uma de minhas favoritas), chega até a ter sua melodia apresentada no teclado às garotas pela Mugi.




Mas existem três canções especiais que precisam ser abordadas particularmente. A primeira delas é Fuwa Fuwa Time (Hora Fofa-Fofa). Essa é a música principal da banda, o maior hit, assim como We Are the Champions é para o Queen e Money for Nothing é para o Dire Straits. Foi a primeira canção que compuseram e a reação inicial à letra da Mio foi documentada no episódio 5 da 1ª temporada. A reação não foi muito positiva por parte da profª Sawako e da Ritsu – elas acharam que morreriam de diabetes –, mas a Yui e a Mugi amaram. O pior é que até a letrista ficou com vergonha quando soube que precisaria interpretar sua criação ao vivo!

Kimi wo miteru to itsumo HEART DOKI DOKI (Quando olho pra você, meu coração fica todo acelerado) 
Yureru omoi wa MARSHMALLOW mitai ni fuwafuwa (Essa sensação agitante é fofa-fofa, como um marshmallow)

A letra pode ser bobinha, mas o que a torna tão especial é o fato de ter sido a chave dos momentos mais importantes da banda, como durante o festival do 1º ano, a primeira apresentação delas e um momento de superação, especialmente para a Mio; durante o festival do 2º ano em que a Yui chegou atrasada, a primeira vez que se apresentaram junto da Azusa, com direito a um bis improvisado devido à energia contagiante daquele momento incrível; e em diversas outras performances que proporcionaram a elas e ao público um fuwa fuwa time~.

Aptamente, é a última música que escutamos nos créditos do filme, a despedida de K-ON! depois de 41 episódios de pura alegria. Se não se emocionou com a canção durante qualquer um dos momentos que ela tocou anteriormente, é aqui que você cede às lágrimas de felicidade.


Uma das músicas mais emotivas é U&I. O título, além de ser uma abreviação de You and I (eu e você), também forma o nome Ui, a irmã de Yui, a quem essa canção é dedicada. Yui a compõe após um dia que Ui adoece e fica impossibilitada de fazer as tarefas de casa, aí percebe a importância de sua irmã caçula e a falta que faria em sua vida caso desaparecesse dela. Só essa justificativa já é o suficiente pra encher os olhos de qualquer um que conhece a relação dessas duas, mas a Yui não mediu esforços em exprimir na letra tudo aquilo que sentia do fundo do coração.

KIMI ga soba ni iru dakede itsumo yuuki moratteta (Simplesmente de estar ao seu lado você sempre me deu coragem) 
Itsumade demo isshoni itai (Eu quero estar com você hoje e para sempre) 
Kono kimochi wo tsutaetai yo (Eu quero te contar que é assim como me sinto) 
Hare no hi ni mo ame no hi mo (Seja embaixo de sol ou chuva) 
KIMI wa soba ni ite kureta (Você sempre esteve perto de mim quando eu precisava)
Me wo tojireba KIMI no egao kagayaiteru (Sempre que fecho meus olhos consigo ver seu sorriso brilhando intensamente)

Com esse propósito fraternal e por ter estreado durante a última apresentação das meninas no festival escolar, os sentimentos que essa canção retrata nos dominam da cabeça aos pés e são convertidos em baldes de lágrimas. U&I é uma carta de amor escrita com toda a afetividade do mundo.


Aí temos a músical final, Tenshi ni Fureta yo! (Tocamos em um anjo!). Essa é literalmente a música final, porque foi a última vez que tocaram juntas como membros do Clube de Música Leve no dia da formatura, o último dia de aula. A canção é uma despedida das quatro meninas à Azusa, feita em segredo como uma surpresa para a caçula da banda. Não preciso nem dizer que uma cachoeira se rompeu tanto em meus olhos como nos da Azunyan durante a apresentação.

demo ne, aeta yo! suteki na tenshi ni (Mas nós conhecemos um maravilhoso anjo) 
sotsugyou wa owari ja nai (A graduação não é o fim) 
kore kara mo nakama dakara (Nós continuaremos amigas daqui em frente) 
issho no shashintachi (Fotos de nós juntas)
osoro no KIIHORUDAA (Nossos chaveiros que combinam) 
itsumademo kagayaiteru (Brilharão para sempre)
zutto sono egao arigatou (E novamente, nós te agradecemos por seu sorriso!)

A importância da Azusa para as garotas e vice-versa é tão intensa que o enredo principal do filme não é a viagem delas para Londres, mas sim todo o processo de composição dessa canção. Vemos a diligência delas em impedir que a mocinha descubra o que estão planejando e como o vislumbre de uma pomba branca voando nos céus após uma súbita corrente de vento as propiciou o termo “anjo” para descrever a Azusa.

K-ON! pode não ser uma série que explore devidamente as dificuldades de se fazer música, mas se tem algo que ela sabe explorar são sentimentos. Alegria, gratidão, felicidade, amabilidade... Quando você une todos esses sentimentos a essa mídia poderosa que é a música, o resultado é um produto que se instaura em seu coração, capaz de iluminar o seu caminho.

tobikiri no yume to deai kureta (Conseguimos encontrar um sonho extraordinário) 
ongaku ni arigatou (Então agradecemos a música por isso)
eki no HOOMU kawara no michi (Na plataforma da estação, às margens de um rio) 
hanaretete mo onaji sora miagete (Mesmo se estivermos separadas, podemos olhar para o mesmo céu) 
YUNIZON de utaou! (E cantar em uníssono!)


*enxugados os olhos* E quase que eu me esqueço de falar da trilha sonora de fundo! São composições agradáveis e alegres que combinam perfeitamente com o conteúdo da série. Creio que algumas delas exerçam funções terapêuticas pelo tanto que as considero relaxantes, como Karui Joudan, Cotton Candy e Crepe wa Ikaga? (essa inclusive me lembra MUITO a trilha sonora dos jogos Animal Crossing), já outras me deixam eufórico, como Doki Doki Friday Night, Pinch Daisuki e Tanpopo Takkyubin, e algumas delas são a Yui personificada em ondas sonoras, como em Happy languidness e Patrol of stroll. Mas não há dúvidas que a música mais marcante e que mais remete a K-ON! é essa aqui:

                                  

INSPIRAÇÃO

Se você, pessoa cética que critica K-ON! sem nem ter assistido, ainda não ficou convencida do valor da obra mesmo depois de tudo que escrevi, gostaria de te apresentar as seguintes postagens:

https://www.reddit.com/r/k_on/comments/7knfa0/how_many_of_you_have_picked_up_an_instrument_or/

https://myanimelist.net/forum/?topicid=77470&show=0


Esses tópicos mostram inúmeros relatos de pessoas que foram inspiradas pelo conteúdo da série. Sim, esse anime bobo sobre garotas tomando chá e comendo bolo despertou um interesse na vida dessas pessoas, algo que pode ser usado para desenvolver talentos, para realização pessoal e talvez até profissional.

Eu mesmo vou comprar um teclado agora no começo do ano, um instrumento pelo qual sempre tive interesse em aprender, mas minha experiência com K-ON! foi o gatilho para eu tomar a decisão de finalmente comprá-lo e quem sabe desenvolver uma nova paixão, assim como aconteceu com uma certa mocinha...



 A 1ª temporada pode ser um tanto inferior à segunda, mas se tem algo incrível nela é você assistir ao seu primeiro episódio e ao último e notar como a Yui amadureceu seu pensamento. Enquanto no início ela não tinha nada que a motivasse a fazer algo de útil na vida, ao entrar no Clube de Música Leve e começar a praticar guitarra, todas suas ações passaram a se refletir nessa atividade que começou a moldar sua vida. No primeiro episódio ela corre despretensiosamente em direção a escola, sem preocupações. Já no último, ela corre dedicadamente com um único propósito em mente – dar mais um passo de superação com sua apresentação no festival.



 Yui encontra algo que ama fazer ao começar a tocar guitarra, algo que transforma sua vida. Essa sua paixão, também compartilhada pelas outras garotas do grupo e evidente nas composições e apresentações que fazem juntas, é possivelmente o aspecto mais importante da série e o que a torna tão inspiradora para mim, para os indivíduos desses tópicos que compartilhei e sabe-se lá para mais quantas centenas de pessoas espalhadas pelo mundo.


CONCLUSÃO


K-ON! definitivamente não é apenas uma série divertida sobre garotas fofas fazendo coisas fofas. De baixo desse pretexto há uma obra sentimental e inspiradora, cheia de detalhes sutis, com uma direção humana e sensível, feita com muita paixão e carinho. A todos aqueles que demonizam o anime pela overdose de fofura e falta de seriedade, o que me resta é lhes deixar com a seguinte mensagem de sabedoria:

"Coisas divertidas são divertidas".


-por Vinicius "vini64" Pires

Leia também minhas outras análises sobre animes da Kyoto Animation:

Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Bel Borges disse...

Uma coisa que notei nos seus últimos reviews foi que, apesar de seguirem um modelo semelhante, cada um possui um foco específico. No caso de K-On, são os sentimentos de ternura que a série emana a partir da animação e das músicas, sobre os quais você escreveu de maneira exímia, porque a sua própria análise transmitiu os mesmos sentimentos. Eu diria que esse texto funciona como uma obra à parte, não exige que o leitor conheça muito bem a série pra se entreter. De quebra ainda deixa com vontade de assistir. Apesar de ser dividido em tópicos, como de costume, existe uma ligação entre um e outro, como uma corrente, e cada um foi muito bem explorado. Creio que seja o seu melhor review que eu li até hoje.

Sobre K-On, confesso que não dei muito bola depois de assistir pela primeira vez. Foi uma experiência agradável e fim. Contribui o fato de ser um dos primeiros animes que assisti na vida, quando eu ainda era bem nova, então não prestei muita atenção nos detalhes. Como você comenta comigo a respeito há um tempo, eu pude relembrar de vários momentos da série e enxergar com outros olhos. De fato, é um trabalho que deixa evidentes a atenção aos detalhes e o amor pelo ordinário e humano, por parte da diretora e (creio que) da KyoAni, porque esse aspecto se repete em outras séries, como a minha segunda série de anime preferida de todos os tempos, Nichijou. Embora Nichijou seja conhecida pelo humor aleatório e absurdo, também existem esses momentos de meiguice e normalidade.

Por fim, confesso que chorei um pouquinho da metade pro final da leitura. Não sei ao certo se foram a positividade e o carinho colocados nesse texto, as lembranças de momentos em que me senti de maneira parecida com todas essas situações destacadas ou uma mistura disso tudo. É fato que valeu a pena ler. Obrigada por isso.