domingo, 29 de janeiro de 2017

Neon Genesis Evangelion


No mundo dos animes, muitos diretores se tornaram famosos pelo conjunto de sua obra. Pode perguntar para qualquer um a respeito do Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Satoshi Kon, Makoto Shinkai, Mamoru Hosoda, Osamu Dezaki – é muito raro alguém falar que só conhece uma animação desses caras. Porém, há um diretor considerado um dos maiores e mais conhecidos mundialmente exclusivamente por um trabalho: Hideaki Anno e sua obra-prima Neon Genesis Evangelion. Não estou dizendo que ele não dirigiu outros animes conhecidos, como Nadia: Secret of the Blue Water, mas Evangelion é indubitavelmente a fonte de todo o seu reconhecimento.

A série foi ao ar de 1995 a 1996, com 26 episódios, e causou um enorme impacto na cultura japonesa. Isso se deve aos temas filosóficos e existenciais abordados na produção, algo que não era comum de se encontrar em animes mecha da época, já que estes basicamente consistem em humanos batalhando dentro de robôs. Evangelion subverteu esse gênero ao usar as lutas apenas como plano de fundo para o desenvolvimento de temas profundos. Mas será que a série merece todo o reconhecimento que lhe é dada? Será que todo esse papo de tentar ser uma obra profunda é apenas pretensiosidade do diretor?

PERSONAGENS

A história gira em torno de Shinji Ikari, um garoto de 14 anos introvertido, tímido, inseguro, hipersensível e mentalmente transtornado. Após ser abandonado há anos por seu pai, o menino é chamado pelo próprio para ser o piloto de uma máquina artificialmente humana, o Evangelion Unidade 01.

Um pouco diferente da imagem de protagonista que estamos habituados a ver, não é mesmo?

Seu pai, Gendo Ikari, um homem austero que raramente é visto sorrindo, é o comandante de uma organização chamada NERV, encarregada de impedir que inimigos conhecidos como Angels causem novamente um evento catastrófico capaz de devastar a humanidade, e a única arma capaz de combatê-los são os Evangelions.

Uma figura imponente.

Essas máquinas, por sua vez, só podem ser utilizadas por crianças (pré-adolescentes, para ser exato). A Unidade 00 é pilotada por Rei Ayanami, uma misteriosa garota taciturna que aparentemente não compreende o que são sentimentos e emoções.


A outra pilota, responsável pela Unidade 02, é a Asuka Langley Soryu. Ela é exatamente o oposto dos quietos Shinji e Rei: não para de falar e reclamar durante um segundo sequer, sempre deseja ser o centro das atenções e é mais esquentada que magma de vulcão.

"Você é idiota??"

A capitã de operações da NERV e tutora do Shinji e da Asuka se chama Misato Katsuragi, uma moça formosa de 29 anos extrovertida e brincalhona, mas que se torna uma pessoa completamente diferente quando a situação aperta no trabalho. Sua melhor amiga é a Dra. Ritsuko Akagi, cientista chefe da NERV, uma mulher fria que fala pouco de si e não costuma demonstrar seus sentimentos.


Existem outros nomes relevantes na série, mas só por estes que apresentei já dá para perceber como são únicos em suas personalidades (apesar de as descrições que dei serem apenas a superfície deles). Este é definitivamente o aspecto mais fenomenal de Evangelion: a caracterização dos personagens. A série trabalha esplendorosamente a relação entre estes e seus estados psicológicos. Eles são representados como pessoas cheias de falhas e problemas pessoais, assim como todo ser humano.

Para mim, esse tópico é o mais importante da obra, então o abordarei com mais ênfase posteriormente neste artigo.

TRILHA SONORA

Antes da trilha sonora, gostaria de falar sobre a tema de abertura. Se você leu meus reviews anteriores, não é nenhuma novidade eu adorar uma música de introdução de um anime antigo, mas com Evangelion é diferente. Zankoku na Tenshi no Teze (A Cruel Angel’s Thesis) é simplesmente a melhor e mais cativante tema de abertura da história. Eu a escutei mais de 100 vezes em um período de 4 dias, ouvindo-a em loop sem parar. E ainda a ouço com frequência, sem nenhum sinal de enjoar. A canção até ganhou em primeiro lugar numa premiação da maior sociedade de administração de direitos autorais musical do Japão. É um fenômeno em seu país de origem e na internet, por conta das inúmeras paródias de abertura de anime que usam a introdução da série.

                    

Até mesmo os pássaros ficam viciados nessa música, cara.

                    

A trilha sonora de Evangelion é bastante eclética, abrange uma gama de estilos que passa por orquestral, rock, ambient, música clássica, R&B e jazz. O compositor conseguiu criar peças com diversos gêneros sem que pareçam deslocadas quando tocam. Porém, existem determinadas situações em que músicas dissonantes são usadas com o propósito de causar estranhamento ou desconforto no espectador. Um exemplo é uma cena em que um raio de luz está invadindo a mente de um personagem e a música clássica Hallelujah começa a tocar (obs: quem assiste essa cena nunca mais escuta a canção da mesma maneira).

No geral, essa variedade de estilos faz da OST única e diversas de suas peças são boas para se escutar separadamente, seja durante o trabalho ou na rua. Só cuidado para não se deixar levar de mais pelas músicas mais introspectivas e começar a se perguntar sobre sua própria existência. Deixo aqui umas de minhas favoritas, procurando mostrar a diferença de estilos da trilha sonora:

                  
                  Peça orquestral bastante emotiva. Uma das mais lindas da OST.

                  
                 Peça ambient que toca durante os momentos mais introspectivos dos personagens.                        Diversas variações dela aparecem ao longo da série.

                  
                 Peça de rock pesado utilizada quando uma situação está saindo do controle.

                  
                  Peça com o piano como instrumento predominante. Tema da Rei Ayanami.


Se quiser escutar mais músicas da série por conta própria, esse canal aqui tem praticamente todas as peças de sua trilha sonora.

Por outro lado, a ausência de trilha sonora é um aspecto a ser elogiado de Evangelion. Eu aprecio muito animações que sabem respeitar os momentos em que o silêncio é necessário, afinal, não é legal você assistir dois personagens conversando sobre questões íntimas de suas vidas ou alguém observando uma paisagem com música tocando em segundo plano. O som das cigarras ao fundo proporciona uma experiência muito mais imersiva em situações do tipo e a equipe de sound design da série soube explorar isso satisfatoriamente.

ARTE

Evangelion é o primeiro anime super mainstream que me envolvo pra valer, posso dizer que virei fã. Os outros dois nichos de anime que me tornei fã foram os filmes do Studio Ghibli, que são impossíveis de se criticar o trabalho de arte impecável, e as séries do World Masterpiece Theater, das quais já é difícil de se encontrar alguém falando a respeito, imagina sobre a arte em específico. A diferença do público desses dois nichos para o do Evangelion é que eles não são mainstream, ou seja, seu público geralmente não assiste um grande número de animes conhecidos e recentes.

Onde quero chegar com isso? O fato do público geral de Evangelion entrar em contato com inúmeros animes novinhos faz com que o trabalho de arte da produção seja depreciado e taxado como datado por diversas pessoas. Eu perdi a conta de quantas vezes li indivíduos perguntando se podiam assistir aos filmes Rebuild ao invés da série por causa do estilo de arte “tosco” (um exemplo disso aqui). Esse é o problema de animes mainstream – muitas pessoas apenas os assistem por serem conhecidos, não pelo mérito das séries, só pra dizer que viram tal produção famosa, aí acabam não apreciando obras de conteúdo da maneira devida, como é o caso de Evangelion.

"Esses otakus me enojam".

Arte datada. Tudo antigo é de fato datado, no sentido literal da palavra, mas ultimamente usam esse termo justamente para depreciar o que é antigo. Já eu vejo muito mais charme no que é antigo, feito à mão e sem a ajuda de computadores. E a arte de Evangelion é excepcional por conseguir representar diversos elementos relacionados à tecnologia, como robôs, inimigos mecânicos, e inúmeros painéis e visores tecnológicos, sem o uso de computadores.


E esse é só um dos méritos da arte da série. O trabalho de cenários não deixa nada a desejar. As paisagens urbanas de casas e prédios, as paisagens de natureza, os interiores tecnológicos da NERV, o interior aconchegante das casas japonesas... Realmente não vejo o que botar defeito nos backgrounds dessa série, são muito bem feitos.


Quanto ao trabalho de animação, é tudo muito fluído. As lutas, os movimentos dos personagens, as explosões, as sequências distorcidas dentro da mente dos personagens, tudo. Já vi pessoas colocando defeito na quantidade de planos longos, mas eu acho isso uma ótima sacada da direção, porque um plano demorado em determinada situação consegue te ambientar melhor nela, e imersão é um fator crucial nessa série.

Se essa cena te deixa entediado em vez de apreensivo com a situação, você está apreciando Evangelion incorretamente.

O character design talvez seja aquilo que mais aprecio na arte dessa série. Os personagens são desenhados de maneira relativamente realista, sem nada neles que não se encaixe em nossa realidade, desde suas roupas aos seus trejeitos. Claro que temos o velho artifício das expressões exageradas, mas a dosagem delas em Evangelion é bem mais moderada que na maioria dos animes mainstream e nunca chegam a deformar o personagem, como é muito comum de se ver em outras séries.


A arquitetura dos Evangelions foi feita pelo próprio diretor e por um designer da equipe. Então o Anno, além de dirigir, produzir, animar e escrever a história, ainda ajudou na criação dos mecanismos complexos desses mechas com trocentas funções e partes de corpo. Meus parabéns! O design abstrato dos Angels também é de se elogiar, indo de um simples diamante gigante à uma corrente circular de luz.

Ao invés de uma imagem para representar os EVAs e os Angels, vou colocar logo um vídeo de uma das lutas mais geniais que já vi em qualquer animação.

                    

Um ponto que admiro muito no design dos personagens é a variedade de roupas que usam. Por mais que tenham suas vestimentas padrões, é bem comum eles serem mostrados com outros tipos de trajes em determinadas situações, como quando estão em casa, na escola, em festas, em um treinamento etc. Isso é de suma importância no papel de transmitir ao espectador que eles são pessoas normais vivendo suas vidas assim como todos nós, algo que poucos animes com elementos de fantasia conseguem fazer. Você enxerga uma pessoa real naquele personagem e isso melhora absurdamente sua experiência com a obra.


RELAÇÕES HUMANAS

Vou direto ao ponto: Evangelion tem falhas. As constantes batalhas contra Angels dos primeiros 13 episódios quase deram um formato “Monster of the Week” à série, a maneira como estes são derrotados é bem previsível na maioria das vezes, ela tem alguns erros de continuidade, e o fato de que o enredo foi sendo constantemente modificado ao ponto de que a história era criada junto da exibição dos episódios causou uma certa inconsistência em certos pontos da mesma.

Contudo, há um aspecto da narrativa trabalhado de maneira tão magistral que compensa todas as falhas supracitadas – as relações humanas. A interação entre os personagens, seus pensamentos, seus estados psicológicos, tudo que diz relação ao ser humano é o que mais me fascina nesse trabalho de Hideaki Anno.


Eu assisti muitas animações com temáticas realistas e me convenci de que, para eu criar um vínculo emocional com o que está sendo mostrado, a história não deve conter fantasia, não deve conter elementos que não existem em nosso mundo. Porém, Evangelion mudou esse meu conceito. Percebi que o importante não é a ausência da fantasia nem a necessidade da história se passar no mundo real. O importante é mostrar que os personagens são humanos.

A produção aborda temas como solidão, insegurança, medo, sexualidade, dependência emocional, sensação de perda, sentido da vida e, principalmente, construção do eu. Estes são assuntos que permeiam por nossas vidas e influenciam em praticamente tudo o que fazemos. As relações que nos moldam como pessoas são ligadas diretamente a estes tópicos e isso é representado de maneira sublime na obra.

Algumas relações representadas na série (esquerda para direita):
uma mulher que nega seus sentimentos por um antigo parceiro; duas personalidades contrastantes convivendo juntas; uma garota fria experienciando pela primeira vez a sensação de se sentir querida por alguém; uma queda amorosa dos tempos de escola.

Mas tem algo que nós seres humanos fazemos por quase 100% do tempo que é explorado em Evangelion de um modo que nunca se viu em nenhuma animação – pensar. Sim, pensar. Existe outra coisa que façamos mais do que pensar em nossas vidas? A mente dos personagens é tão aprofundada na série que é possível montar um perfil psicológico altamente detalhado deles. Suas reflexões, indagações, crises internas, pensamentos sujos... Tudo que diz respeito ao psicológico e existencial é desenvolvido indefectivelmente.


Mas não é só de reflexões que é feita a vida, não é mesmo? Evangelion também mostra diversos momentos descontraídos da vida dos personagens: curtindo com os colegas na escola, bebendo cerveja loucamente em casa, uma reunião de amigos, discussões imaturas diante de oficiais adultos, a ida a um casamento, um treino de dança sincronizada, entre diversas outras ocasiões que todos nós já vivenciamos ou que são plausíveis de uma pessoa vivenciar.

A série representa até mesmo situações mais mundanas, como a equipe da central da NERV em seus intervalos. A Maya é mostrada lendo um livro e se emocionando, o Hyuga ri com uma história em quadrinhos e o Aoba faz um solo maroto com uma guitarra invisível. Vale pontuar que, antes dessa cena, não sabemos nada a respeito da personalidade desses personagens e esses takes nos apresentam isso de maneira breve e sutil.


No episódio seguinte, a cena inicial mostra como estes e outros funcionários da organização iniciam seu dia, fazendo compras, retirando as roupas da lavanderia e pegando metrô. Percebemos como até o vice-comandante Fuyutsuki é apenas um senhor de idade que pega transporte público e lê jornais depois de voltar entediado de uma reunião a mando do Gendo.


Cenas sutis como essas podem ser consideradas supérfluas para quem só quer história e ação, mas é por meio delas que percebemos como eles são pessoas normais vivendo suas rotinas de trabalho assim como qualquer um. Você percebe como a equipe de produção sabe desenvolver personagens quando não precisa utilizar a suspensão de descrença em uma animação de fantasia, quando você consegue ver o personagem e pensar “Isso é real”. É muito mais fácil de se importar e se identificar com os personagens quando você os enxerga como seres humanos de verdade.


私は誰ですか - QUEM SOU EU?
(OBS: Essa seção e a próxima contêm SPOILERS. Apenas leia se já tiver assistido à série.)

O desenvolvimento psicológico em Evangelion é tão denso que gostaria de falar um pouco mais sobre alguns personagens incompreendidos, começando pelo nosso principal Shinji. Eu o considero muito injustiçado, vejo diversas pessoas taxando-o como um protagonista horrível. Esses indivíduos são aqueles fãs de anime que estão habituados somente com o herói fodão que não tem medo de nada, sem falhas, o ser humano perfeito. O fato é que não existe um ser humano assim. O Shinji é repleto de falhas, assim como nós. As pessoas o consideram um herói ruim, mas não percebem justamente que ele NÃO QUER ser um. É quase uma subversão do papel de protagonista.


No primeiro episódio, Shinji é literalmente jogado na situação de pilotar o EVA-01 com o fardo de ser o defensor da humanidade, algo que, junto com a raiva que sente de seu pai por tê-lo abandonado e está-lo usando apenas como um instrumento, faz com que sua mente fique atormentada de indagações a respeito de si próprio. Isso se intensifica ao longo da série, à medida que vai se relacionando com pessoas e tendo mais experiências traumatizantes ao pilotar o EVA.


Como eu havia falado, o Shinji não é diferente de nós. Ele apenas quer fugir da dura realidade e achar algo que lhe proporcione felicidade. Quem não quer viver assim? Ele se apega a um momento feliz de sua vida e tenta usá-lo como motivação para seguir em frente. Junta migalhas de felicidades em meio a infelicidade a fim de achar um sentido para viver, para fugir da realidade. Quem nunca passou por isso? Ele tem medo dos outros Shinjis que existem na mente das pessoas com quem convive. A visão dos demais a seu respeito o atormenta e faz questionar sua existência. Quem não se importa com o que os outros pensam de você?


“Ah mas ele tem que pilotar o EVA e salvar o mundo, não dá pra perder tempo com essas crises existenciais!!” É, se Evangelion fosse um shounen clichê, talvez esse seria o rumo tomado, mas ainda bem que não é. As ponderações do Shinji são o que fazem dele um personagem multifacetado e fácil de se identificar. Podemos não ser tão transtornados como ele, mas conseguimos compreender suas dificuldades.


Outra injustiçada é a Asuka. Ela é minha personagem favorita, não porque é bonita, atrativa ou carismática. Eu não compactuo com essas coisas patéticas de “best girl”, “best waifu”. O motivo dela ser minha favorita é por seu desenvolvimento, por ser uma garota absurdamente forte. Muitos tem raiva dela por sua personalidade histriônica, sempre reclamando e se gabando, mas as pessoas gostam de julgá-la apenas pela superfície, sem avaliar o motivo dela agir dessa maneira.


Sua personalidade destrutiva é uma proteção. Uma garota que se esconde em um casco por causa de um trauma de infância. O casco é a sua aparente autossuficiência, feito para lhe proteger das memórias de uma mãe que trocou a filha por uma boneca. Ela tenta provar a si mesma de que é capaz de viver sozinha e não depender dos outros, mas o fato é que depende destes para viver. Precisa de atenção, de carinho, de amor. Tudo isso não lhe foi dado por sua mãe. Isso a faz acreditar que não precisa dessas coisas. Mas precisa. Precisa e muito. A autonegação da Asuka a destrói nos momentos mais introspectivos.

Se você assiste a essa sequência do mindrape dela e continua a julgando, tem algo de errado contigo.

Me admira a força dela para agir da maneira que age. O Shinji tem medo de se machucar com suas relações, então evita argumentar quando ocorre algum problema, prefere se desculpar mesmo que a culpa não seja sua. Uma atitude passiva. A Asuka é igual a ele, mas de modo oposto, já que age como se fosse o centro das atenções e se relaciona de um jeito hostil. Ela acaba afastando os outros dessa maneira, evitando que se machuque (até um certo ponto). Pode ser considerada uma atitude egoísta, mas eu não a culpo por sobreviver se colocando em primeiro plano, especialmente depois do que passou na infância. Posso não me identificar com a personagem, mas sinto uma empatia imensa por ela.


Um fator interessante da série é que ela aparentemente não tem vilão. Alguns consideram o Gendo como um. Se formos avaliar literalmente o sentido da palavra, o antagonista é aquele que se opõe ao protagonista, que faz de tudo para acabar com a vida deste. Esse não é o caso em Evangelion, já que o pai do Shinji é indiferente se o seu filho está se dando bem ou se ferrando. Ele apenas o usa como um instrumento para realizar seus planos, sem se importar se está feliz ou triste, assim como faz com qualquer outro ser humano com quem convive. Todos são instrumentos para o amargurado Gendo, que apenas quer de volta o amor de sua falecida esposa.

É fácil de simpatizar com ele. Se você estivesse em sua situação e soubesse que há um jeito de se juntar a alguém querido de sua vida que já se foi, você não mediria esforços para fazê-lo, ainda mais acreditando que todos – literalmente todos, a humanidade inteira – viveriam juntos das pessoas que mais adoram por meio do Projeto de Instrumentalidade Humana. Por mais que suas medidas fossem extremas, não dá para negar que as intenções do Gendo são genuinamente positivas.


Já vi pessoas que consideram a SEELE como antagonista. Aí é um detalhe difícil de se aprofundar porque essa organização é um dos detalhes mais complexos da série e nem eu sei direito explicar quais suas intenções. Mas uma coisa é fato: eles se opõem ao Gendo. Seus planos são parecidos, ambos relacionados à Instrumentalidade, mas o cenário ideal de cada um deles para a execução do projeto diverge. Esse é o principal conflito da organização na série, então não vejo muito motivo para considerá-la antagonista.

O monolito não é o vilão de 2001: Uma Odisseia no Espaço, então por que seria em Evangelion? :P

A verdade é que cada personagem da série é seu próprio antagonista. Seus maiores obstáculos a ser superados são seus próprios medos e tudo aquilo que lhes aflige. O ponto central do enredo de Evangelion é o conflito interno na mente de cada um destes, muito mais do que o Projeto de Instrumentalidade Humana. Até mesmo aqueles que aparecem pouco, como os colegas de classe do Shinji, têm seus conflitos. A abertura da série não mostra um tantão de personagens só para fazer volume – todos eles são relevantes e bem desenvolvidos.

Pergunta que ecoa até os confins do universo.

CONVENÇÕES DE ANIME

Agora que já desenvolvi a humanidade dos personagens e seus perfis psicológicos, gostaria de abordar dois temas controversos – fanservice e arquétipos. Aos fãs de anime, com certeza esse primeiro termo lhes é familiar. Fanservice é basicamente quando os personagens (geralmente garotas) são mostrados de maneira sexualmente atrativa para agradar o espectador. Se você assistiu a série sabe que isso existe em Evangelion. Os próprios previews dos próximos episódios anunciavam que haveria fanservice em alguns deles.

Porém – um porém MUITO GRANDE -, quase 100% dos fanservices de anime são gratuitos, ou seja, o corpo da garota é mostrado sexualmente sem ligação alguma com a narrativa. A equipe de produção faz isso apenas para agradar ao público, deixando de lado qualquer coerência dessa exploração com algum contexto da série. Isso NÃO existe em Evangelion – todos os fanservices são absolutamente justificados, nenhuma personagem é mostrada gratuitamente de maneira sensual.

Tem dois episódios que já vi muitas pessoas os classificando como “episódios de fanservice” e isso me irrita. Um deles é o ep. em que a Asuka compra um bikini chamativo e vai se exibir ao Shinji, chegando a perguntar se a expansão térmica do seu corpo na água da piscina faria seus seios aumentarem. Os takes desse ep. a mostram com esse bikini e o Shinji observando ela e a Rei.


Nada disso foge da narrativa da série, visto que a Asuka é uma garota que adora se exibir – algo muito comum em garotas da sua idade – e está querendo uma resposta firme de um garoto que se interesse por seu corpo, ainda mais o Shinji, por quem ela começa a esboçar sinais de afetividade. Ele, por sua vez, está na fase de se descobrir sexualmente, então é evidente que takes dele observando o corpo das garotas teriam de ser mostrados.

O outro episódio é aquele que o Shinji é absorvido pelo EVA-01 e começa a ter diversas alucinações. Em uma delas, o garoto começa a imaginar a Misato, a Asuka e a Rei indo em sua direção com os seios despidos. Esse episódio desenvolve maravilhosamente o conflito interno do Shinji e a visão que tem do mundo e das pessoas com quem convive. O ep. até revela implicitamente qual o motivo da conexão extraordinária do garoto para com o EVA-01. Mesmo assim, li diversos sujeitos rotulando-o como “episódio de fanservice” por causa de UMA cena das garotas com seus seios a mostra.


Avaliemos a cena então: Um garoto de 14 anos está delirando. Ele convive rotineiramente com mulheres sensuais por quem sente atração devido à sua idade e à realidade em que está inserido, na qual sexo é um tema frequentemente discutido. Em seus pensamentos, é claro que ele as deseja sexualmente. Sério mesmo que os fãs obstinados por anime não conseguem enxergar o contexto por trás de uma cena que aborde sexualidade e já saem classificando como fanservice?

Por isso não gosto de atribuir esse termo a Evangelion, pois fanservice pra mim é apelação gratuita e isso não existe na série. Toda cena que mostra peitos e pernas de personagem sempre tem um contexto por trás. O shot da Asuka logo abaixo é um exemplo disso. À primeira vista pode parecer puro fanservice só pra mostrar os seios dela, mas repare bem nos olhos do Shinji no take seguinte. É uma maneira muito sutil de desenvolver seu interesse sexual. Sem zoom nos peitos ou reações exageradas por parte dele que gritem ao espectador “NOSSA, OLHEM AS TETAS DA ASUKA!!”. Apenas um simples movimento de olhar.


Querem mais um exemplo? A cena do episódio 2 que mostra em evidência o busto e o traseiro da Misato. “Ah cara, sério mesmo que tu vai tentar justificar isso? É óbvio que é puro fanservice!” Muito bem então. Misato Katsuragi. O que sabemos dessa personagem até o momento da cena em questão? Apenas que ela parece uma moça extrovertida e brincalhona, mas que se torna rígida em seu ambiente de trabalho. Somente nessa cena descobrimos a verdadeira personalidade dela dentro de casa e, como parte da apresentação da personagem, os takes de seu corpo nos introduzem a um aspecto crucial de seu desenvolvimento: a sensualidade. Esse talvez seja o maior atributo dessa moça e é o que traz, ao mesmo tempo, os maiores prazeres e infortúnios de sua vida.


Já que estou falando das mulheres da série, vamos ao segundo tema controverso que gostaria de abordar – rótulos de personagens, ou arquétipos. A definição da palavra, de acordo com o site Dicio, é a seguinte:
arquétipo – s.m. – O modelo que se utiliza como exemplo para; Todo e qualquer tipo de padrão ou modelo.

De uns tempos pra cá, arquétipos se tornaram um atrativo aos consumidores de animes, assim como o fanservice supracitado. Muitas pessoas decidem assistir determinada série porque tal personagem é tsundere, dandere, kuudere, sei lá o que-dere. Isso se tornou um fenômeno tão grande no mundo das animações japonesas que diversos personagens agem da maneira determinada pelo arquétipo que lhe é atribuído sem uma motivação convincente, sem um porquê dele ter essa personalidade.

Usemos de exemplo o rótulo tsundere: personagens geralmente femininas bravas e hostis, com um senso forte de independência e que não demonstram gentileza, mas que no fundo se importam com os outros. Esse arquétipo é atribuído à Asuka e a descrição combina perfeitamente com ela, não é mesmo? O fato é que a personagem não age assim simplesmente a fim de catalisar pessoas a assistir a série que protagoniza, como é o caso de inúmeros animes. A personalidade dela é excepcionalmente fundamentada, tendo em vista as situações traumatizantes de sua infância.


Outra personagem da série que infelizmente é sinônimo de um arquétipo é a Rei Ayanami. O Dicionário InFormal explica: “Uma personagem kuudere tem uma personalidade aparentemente fria e tenta esconder de toda forma suas emoções, mas, em certos momentos, acaba revelando um lado adorável”. Essa aqui é até triste ver sendo rotulada depois que você descobre os motivos por trás de sua personalidade.


A falta de desenvolvimento dos personagens apenas atribuídos arquétipos com o propósito de chamar atenção é o que me deixa um tanto frustrado ao ver essas personagens do Evangelion, com todo um embasamento de suas personalidades, sendo rotuladas. A definição dos rótulos podem até fazer jus à maneira como agem, mas estes adquiriram uma conotação extremamente negativa pra mim devido a todos esses problemas que mencionei.

O que às vezes me tranquiliza e ao mesmo tempo me aflige quanto a esse tópico é a representação dessas personagens nos filmes Rebuild of Evangelion, uma reimaginação da história da série. Não vou me estender a respeito destes, mas se você é uma pessoa que ama o desenvolvimento psicológico dos personagens, nem chegue perto deles. O fato é que esses filmes foram feitos para serem mais acessíveis ao público de anime do século XXI, então eles pegaram esses dois temas que critiquei nessa seção e abusaram o máximo que puderam.

Equipe de produção: "A Asuka peladinha chutando o Shinji com certeza chamará a atenção desses otakus de hoje em dia kkkkkkkkk"

Os rótulos de kuudere e tsundere associados à Rei e à Asuka são mais do que justificados no segundo filme porque elas simplesmente viraram personagens clichês de anime, assim como a maioria das que você encontra nas listas de arquétipos. O fato de eu ver a Asuka com uma foto dela do Rebuild em uma lista das melhores tsunderes é um tanto tranquilizante pelo fato de que eu não poderia me importar menos com essa versão dela, mas é algo que também me aflige ao ver essa versão recebendo mais notoriedade que a original por um motivo patético.

Até imagino o que a Asuka Langley Soryu está dizendo aí:
"Asuka Langley SHIKINAMI? Que piada".

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Minha análise abordou majoritariamente o aspecto humano, pois é o que mais acho fascinante em Neon Genesis Evangelion, mas a obra também é um prato cheio para quem gosta de fritar a cabeça com teorias a respeito de quais os planos das organizações, qual o verdadeiro papel de determinado personagem, qual o significado de inúmeros diálogos cheios de ambiguidade, qual o sentido das referências religiosas e filosóficas... O maior trabalho de Hideaki Anno desperta perguntas dos fãs até hoje de tão rico que é seu conteúdo. A cada vez que reassiste, mais coisas você absorve. Inclusive, logo depois que terminei de assistir a primeira vez, já recomecei novamente de tanto que adorei, e para entender melhor diversos tópicos.

Eu poderia duplicar o tamanho desse artigo explorando mais o desenvolvimento de cada um dos personagens da série, mas acho que o recado já foi dado: Evangelion vai muito além de um simples anime de fantasia mecha – é, acima de tudo, uma obra humana.

           

-por Vinicius "vini64" Pires


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