sábado, 24 de dezembro de 2016

Romeo's Blue Skies



Em outubro, decidi assistir a uma série dos anos 90 do World Masterpiece Theater para tirar a prova viva de que as produções eram fracas se comparadas às dos anos 70. O que ficou comprovado, no entanto, é que essa afirmação era na verdade uma baita mentira, pois Little Women II acabou se tornando uma de minhas animações favoritas do bloco (leia meu review). Com isso em vista, parti para mais uma da década de 90 que veio dois anos depois dessa para conferir se a qualidade se manteve.

Romeo’s Blue Skies (jp: Romeo no Aoi Sora), de 1995, é uma adaptação do romance suíço Die schwarzen Brüder (The Black Brothers). A animação nos mostra a história de um garoto que deve sobreviver em condições precárias como limpador de chaminés em Milão, Itália após ser vendido para ajudar sua família. Infelizmente, a popularidade do World Masterpiece Theater já estava em declínio ao lançamento dessa produção, o que fez com que ela contasse com apenas 33 episódios, algo que prejudicou o desenvolvimento da história.




PERSONAGENS

O protagonista é Romeo, um garotinho destemido de 11 anos que faz de tudo para não se deixar abater por nada, independente da situação. Em seu caminho à Itália, após ser vendido como limpador de chaminés, ele encontra Alfredo Martini, um misterioso garoto com sua mesma idade. Ao descobrir que ele compartilha de seu mesmo destino, os dois se unem para enfrentar todas as adversidades que encontrarão durante essa árdua fase de suas vidas, formando um elo de amizade inquebrável.


Porém, essa dura realidade não é exclusiva somente a eles - inúmeras crianças são obrigadas a trabalhar como limpadoras de chaminés, submetidas a condições subumanas. Ao descobrir isso, Romeo e Alfredo decidem juntar todos esses garotos e formar uma fraternidade chamada The Black Brothers (Os Irmão Pretos, cor que representa a fuligem das chaminés que impregna seus corpos), para se apoiarem e se manterem unidos em toda e qualquer situação.


Como se já não bastasse o sufoco que passam em seu trabalho forçado e a violência que são submetidos às mãos de seus chefes, esses garotos ainda precisam ter cuidado com cada passo que dão em Milão devido à gangue Wolf Pack (Bando do Lobo), um grupo de jovens rebeldes que gostam de roubar alimentos e sentar porrada nos outros.


Muitos personagens, não é mesmo? É aí que reside o problema da série: o desenvolvimento deles. Quanto aos protagonistas, não tenho o que reclamar, são personagens com diversas camadas de profundidade, com intenções claras e bem motivadas. O mesmo não pode ser dito para grande parte dos integrantes dos Black Brothers e do Wolf Pack - você sequer lembra seus nomes em detrimento do destaque mínimo que lhes é dado. O roteiro não faz questão alguma de individualizar cada um dos membros. Fora os que mais ficam em primeiro plano, os demais parecem estar ali apenas para dar volume.

Mas o ponto mais baixo de desenvolvimento de personagens em Romeo são os vilões. Primeiro que eu já acho errado ter que empregar o termo “vilão” para os antagonistas de uma série do WMT, já que na vida real não existem vilões propriamente ditos, ou seja, pessoas que sempre estão com um sorriso maléfico no rosto, gesticulando com as mãos enquanto pensam em inúmeras maneiras de acabar com a vida de alguém e soltando risadas diabólicas sempre que alguém se dá mal. O que existe são indivíduos com más intenções e valores deturpados, os quais são bem representados nas demais animações do WMT que assisti.

Infelizmente esse não é o caso dessa série. Os vilões são completamente bidimensionais, com motivações rasas cujo único propósito é fazer o protagonista sofrer. Por mais que a intenção dos roteiristas talvez tenha sido mostrar como esses antagonistas são subumanos, eles fizeram isso de uma maneira que eu simplesmente não consigo enxergá-los como pessoas de verdade, pois não há profundidade em suas personalidades.

Personagem com "VILÃO" estampado em seu rosto.

Outro fator agravante é a quantidade de vilões. O foco das animações do World Masterpiece Theater é o realismo, mas não tem como você enxergar certas situações como realistas com mais de seis sujeitos mal-encarados fazendo de tudo para ferrar com o mocinho. Os tios do Alfredo com aquela velha motivação batida de recuperar um artefato de família que os deixará ricos é tão clichê que eu quase me esqueci que estava assistindo a uma série do WMT.


ARTE

Tá aí um departamento que eu não tenho o que botar defeito na maioria das animações do World Masterpiece Theater. O trabalho artístico da Nippon Animation sempre é consistente, raramente deixa a desejar. Os cenários são primorosos, especialmente as pinturas de construções que chegam a impressionar de tão meticuloso que é o desenho delas, repletas de detalhes. Você realmente se sente na Itália do século passado.





O design de personagens é sólido, realizado por Yoshiharu Sato, o mesmo character designer de Little Women II e Pollyanna. O design é simples e combina perfeitamente com a época em que a história se passa. Sou um fã do trabalho desse sujeito, tenho que admitir.


Quanto à trilha sonora, não tenho nada a reclamar, porém também não tenho nada a elogiar, pois nenhuma composição se destaca nem incomoda. Tem uma cançãozinha tema dos limpadores de chaminé que é um tanto quanto cativante, mas não demora muito para você esquecê-la. No entanto, as músicas de abertura e encerramento são ótimas, como é de praxe dessas animações.

video



EMO(A)ÇÃO


O ponto forte de todas as animações do World Masterpiece Theater é, sem sombra de dúvidas, a carga emocional e sentimental. Este aspecto é explorado de maneira tão esplendorosa que você se torna uma pessoa mais empática por meio do que é mostrado em tela. Isso se deve ao fato de as situações serem realistas, momentos que passamos ou passaremos em nossas vidas. Nós conseguimos nos botar na pele desses personagens porque você realmente sente as dificuldades ou a felicidade que eles estão passando e sentindo.


Contudo, em Romeo eles decidiram dar mais foco às sequências de ação, talvez para atrair um novo público já que a popularidade do WMT estava em declínio, algo que prejudicou em demasia a carga emocional da narrativa. O problema da série é ela dar a entender que assistiremos a uma história realista da vida das crianças limpadoras de chaminés, quando na verdade nos é mostrado um conto quase que fantasioso de garotos brigando para combater o mal ao seu redor. Certos acontecimentos não se encaixam na realidade em que eles vivem, como o fato deles conseguirem se reunir sempre que querem apesar de terem donos extremamente rígidos.

Essa abordagem voltada a ação fez com que o desenvolvimento de diversas situações fosse medíocre, sem muita substância, especialmente em relação às resoluções previsíveis e convenientes. Sério, tem um certo ponto da história em que uma personagem com complicações graves de saúde perde a vontade de viver, mas acorda miraculosamente quando a avó dela aparece em sua casa. Eu podia jurar que estava assistindo a uma animação da Disney.

Uma briga vencida pela intervenção divina do reflexo do sol no amuleto que cegou o adversário. Ai ai ai...

Mas se tem uma mensagem muito bem executada nessa animação é a de amizade. Esse é indubitavelmente o tema central dela. O elo afetivo entre os Black Brothers e especialmente entre Romeo e Alfredo é inspirador e nos mostra como dificuldades são feitas para serem superadas com a ajuda dos verdadeiros amigos. É uma pena que tudo o que mencionei ao longo deste artigo fez com que isso não me tocasse tanto quanto deveria, mas não há dúvidas de que é uma linda relação capaz de inspirar qualquer um a dar mais valor às suas amizades.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



A falta de realismo e o desenvolvimento fraco de situações e personagens são coisas que subtraem imensamente minha satisfação em séries do World Masterpiece Theater. Romeo é uma produção cheia desses problemas, mas que pode agradar aqueles que gostam de uma boa ação e aventura. É o desenho mais acessível do WMT, mas não chega nem perto de ser uma representação digna do que essa coleção de animações tem a oferecer.



-por Vinicius "vini64" Pires


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