quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sussurros do Coração - 20 anos




Hoje é um dia muito especial para mim. Hoje é o dia que um certo filme está completando 20 anos. O nome deste filme é Sussurros do Coração, ou Whisper of the Heart, se preferir em inglês, ou Mimi o sumaseba, para quem gosta de chamar pelo nome original em japonês.

Produzido pelo Studio Ghibli e dirigido pelo saudoso Yoshifumi Kondō, com roteiro de Hayao Miyazaki, a animação nos leva pela vida de Shizuku, uma garota de 14 anos que vive o dia-a-dia sem preocupações, que gosta muito de ler livros, de escrever poesias e de traduzir músicas. Sua vida muda quando ela conhece Amasawa Seiji, um garoto que sonha em ser artesão de violinos e já treina para fazê-lo. Ao encontrá-lo, Shizuku começa a pensar em coisas a respeito de seu futuro que não haviam pairado em sua mente antes e então sua vida dá uma guinada para tomar um rumo diferente. Devo dizer que não é apenas a vida dela que muda, mas também a de quem assiste a essa obra com o coração aberto.

À primeira vista o filme pode se parecer um simples romance, mas na verdade ele trata da busca pela inspiração e pela criatividade, dos anseios de uma garota em expressar seus sentimentos e sua arte através da escrita e de como o processo para se alcançar isso é longo e árduo. Então deixe que eu me expresse a respeito dessa obra pela qual sinto extremo afeto e admiração em um dos artigos mais pessoais que já escrevi.

ARTE

A animação se passa em um local da vida real chamado Tama New Town, no Japão. As paisagens são desenhadas de uma maneira tão perfeccionista com uma harmonia tão magnífica entre traços, formas e cores que chega a dar água nos olhos de tão lindo que é. Tem certas partes que o desenho do cenário é tão deslumbrante e parecido com a vida real que você tem que pausar o filme para se perguntar como alguém pode desenhar algo tão sublimemente impactante. A atribuição de cores meticulosa também tem um papel de suma importância no visual do filme, pois são elas que moldam a atmosfera de diversas situações e te fazem se sentir confortável. Posso não entender muito sobre pintura, mas sei reconhecer um trabalho de arte bem feito.

Sim, meus amigos, isso é um desenho. Não, não é uma foto da vida real.

O diretor do filme, Yoshifumi Kondō, que infelizmente veio a nos deixar muito mais cedo do que deveria, é um mestre do character design. As feições, os trejeitos e as maneiras de agir dos personagens são representados de um jeito tão magistral que apenas o Studio Ghibli consegue fazer, especialmente com Kondō na liderança da produção. O diretor é responsável pela animação chave de diversos filmes do estúdio do período entre 1988 e 1997 e tem um histórico de deixar os personagens que anima o mais expressivos que possível, sem artifícios clichês de anime como ações desproporcionais ao corpo do ser humano.

Além disso, Kondō tem uma abordagem única no mundo das animações onde ele mostra a vida do cotidiano para quem tem o prazer de se maravilhar com uma produção sua. Uma de suas obras, o livro Futo furikaeru to, que significa literalmente “Quando viro de costas”, conta com ilustrações daquilo que uma pessoa perde de ver “quando vira de costas”, com crianças olhando o reflexo em uma poça d’água, uma mulher colhendo flores, uma mãe ajudando seu filho a montar um boneco de neve, uma conversa casual em um dia de frio, entre outras coisas do cotidiano. Essas “coisas” que parecem ser triviais também são mostradas neste filme, pois são elementos do dia-a-dia que muitas vezes não damos valor, mas que podem nos fazer enxergar certos aspectos de nossa vida que deixamos passar despercebidos.

Já imaginou se aquele gato que você viu e ignorou passando pela rua fosse te levar para uma nova descoberta caso você tivesse tentado segui-lo?

Ainda seguindo essa linha de raciocínio genial de 
Kondō que faz dele e de sua produção completamente singulares, o filme procura abordar momentos de nossa vida cotidiana que foram marcantes, mas que não percebíamos na época em que os vivenciávamos. A ida para a escola em um dia de chuva, a revelação de amor de um amigo, uma conversa com os pais a respeito do seu desempenho escolar, aquela conversa noturna com uma amiga... São coisas assim que, na época, marcavam por alguns instantes e então eram esquecidas em detrimento de alguma outra coisa que ocupava a nossa mente turbulenta da juventude. Nós só passamos a dar valor a essas coisas com o choque de realidade que essa animação nos proporciona. É quando você pensa: "Nossa, eu era feliz e nem sabia..."

Sabe aquele momento que você precisa ficar sozinho e dar uma refletida em como tá a sua vida? Aí você sai meio sem rumo, pega um trem, observa a paisagem, fica parado em algum lugar aleatório, tudo isso só pra poder ter seu tempo a só consigo mesmo. Essas pausas de reflexão da vida de uma pessoa são representadas com extrema fidelidade nessa obra. A maneira como ela observa a paisagem é retratada de uma maneira que é como se nós estivéssemos ali, fitando o cenário. Essas cenas não são corridas nem nada, para que a personagem tenha o tempo dela pensar. Shizuku não é simplesmente uma personagem de um filme – é uma pessoa como todos nós e estamos assistindo à vida dela. Momentos de reflexão como esses são cruciais para o desenvolvimento de seu pensamento.


Nas sequências de fantasia, frutos da maravilhosa mente da Shizuku, as paisagens são inspiradas pelas obras fantásticas do pintor japonês Naohisa Inoue, onde a magia transcende a tela e nos encanta com cenários completamente idílicos, transbordando de cores e cheios de brilho. Para quem se interessar pelo trabalho do artista, um OVA chamado Iblard Jikan é composto completamente por suas obras fantasiosas e pode ser assistido ao clicar no link. Garanto que você vai relaxar, se sentir em paz e ficar maravilhado.

Um cenário que somente a brilhante imaginação de Shizuku consegue produzir.

MÚSICA


É claro que, em um filme onde vemos um artesão de violinos retratado, a música não seria tratada apenas como uma simples trilha sonora, como um mero acompanhamento para a imagem que assistimos. Não. As composições aqui são como se tivessem vindo diretamente da mente de Shizuku, se encaixando perfeitamente com o que ela está sentindo em cada situação. Ao ouvir no dia-a-dia essas músicas que representam o estado de felicidade ou de determinação da personagem, os mesmo sentimentos dela passam a me dominar e a me inspirar. Não tenho vergonha em dizer que lacrimejei muito quando estava no trem e ouvia uma dessas lindas composições, pois elas têm esse poder de te afetar no fundo do coração.

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Um dos principais pontos do enredo se deve a uma canção americana que Shizuku está traduzindo como uma maneira de se expressar. Essa música se chama Take Me Home, Country Roads, do cantor John Denver. O mais chegados aos gêneros country e folk devem conhecer essa composição. O fato é que a garota de 14 anos gosta de traduzir músicas como uma forma de se expressar, fazendo adaptações de acordo com seus sentimentos. Uma das versões que fez da música se chama “Concrete Roads”, onde, na letra, os cenários da natureza da versão original são trocados por estradas de concreto, representando o lugar em que ela vive.


A dificuldade de se fazer música é retratada aqui em nossos dois protagonistas - Shizuku traduz e adapta letras de outra língua, algo que é como se estivesse as reescrevendo, e Seiji faz violinos. Como o garoto nota, “a qualidade de um violino depende da qualidade do artesão”. Com isso, o filme explora uma camada muito mais profunda em relação à produção de música, pois não aborda somente a sonoridade da arte, mas sim o processo completo, desde a criação dos instrumentos até a apresentação de uma canção, além de toda a dificuldade que o revolve.  Afinal, a música é uma manifestação do interior de uma pessoa, então não se deve olhar apenas a superfície e sim cavar fundo até a raiz.

A vontade e o esforço de um garoto em realizar seu sonho.

E com isso tudo dito, chegamos ao ápice musical de Sussurros do Coração. Quando Shizuku descobre que Seiji é um artesão de violinos, ela pede para que ele toque um pouco do instrumento. Para sua surpresa, o garoto diz que apenas toca se ela cantar junto. E qual seria a música mais apta para a situação? “Uma música que você conhece muito bem”, como ele coloca – Country Roads. A cena que segue é a mais linda que já vi em toda a minha vida em qualquer animação ou produção audiovisual. Com Seiji no violino, Shizuku canta com receio e medo até que seu coração se deixa levar por aquele momento mágico no qual um sentimento de alegria sem igual transborda aquele recinto onde uma performance completamente espontânea está acontecendo. A naturalidade como isso ocorre é de deixar qualquer ato musical da Disney no chinelo. Assisti a esse filme pela quarta vez (em um período de um ano) neste sábado e a sensação de arrebatamento e encanto que essa cena proporciona é tão grande que me encontrei agarrado no travesseiro enquanto chorava de felicidade, mal conseguindo fechar minha boca. O que acontece nessa cena é verdadeiro, você sente aquele momento. Estou escrevendo isso com lágrimas nos olhos. Muito obrigado, Studio Ghibli, por proporcionar uma experiência única como essa.

Apenas não disponibilizo essa cena pois algo tão majestoso assim deve ser absorvido no contexto da obra.

VALOR SENTIMENTAL

Desde que criei consciência da minha pessoa, sempre fui um alguém pessimista. Sempre reclamando de tudo mesmo que a situação fosse favorável. Mantinha uma ideologia de vida de que se algo de bom acontecesse, algo de ruim seguiria. Hoje posso dizer que estou mais do que contente em ter abandonado esse pensamento tão falho que fez com que eu deixasse de aproveitar diversas épocas passadas. Mas o que teria ocasionado essa mudança de pensamento? Este filme. Essa linda animação me ensinou a dar valor às coisas da vida muitas vezes consideradas triviais e o mais importante de tudo, recuperou a minha autoconfiança. Aquela falta de vontade devido ao não crer em si próprio simplesmente não existe mais, pois o filme nos mostra que nós temos que mostrar nossa arte não só ao mundo, mas principalmente a nós mesmos.

Assim como a protagonista Shizuku, comecei a me “pôr a prova”, a testar minhas habilidades e a acreditar nelas, coisa que não fazia. Devo admitir que às vezes ainda fico relutante das minhas capacidades, mas ai lembro que criei um vínculo com a personagem desse filme. Eu olho para ela e me identifico, pois os anseios dela são os mesmos que os meus, as dificuldades dela são as mesmas que as minhas. Novamente volto a dizer, ela não é simplesmente uma personagem de um filme – ela é uma pessoa real. Sua história de vida é retratada com tanta fidelidade que eu sinto o que o que ela está sentindo. Cada choro, cada sorriso de felicidade, cada ar de determinação esboçado pela Shizuku me atinge de uma maneira que é como se ela fizesse parte de mim. É com ela que ganho forças para seguir em frente.




Tem algo que o avô do Seiji disse que serviu de inspiração para ela assim como serviu para mim e que espero que sirva para todos aqueles que passam pelas mesmas dificuldades de falta de autoconfiança:
- Olhe o interior dessa pedra. É berilo, tem uma esmeralda no interior. 
- Esmeralda, a pedra preciosa? 
- Sim. Você e Seiji são como esta pedra. Um mineral bruto, sem polir. Eu gosto desse tipo de coisas. Mas fazer violinos e escrever histórias não são a mesma coisa. Deve encontrar a joia em você e ter tempo para polir as impurezas. É um trabalho esgotante. Pode ver a grande joia que oculta essa pedra? Pois a verdade é que uma vez que tenha tirado as impurezas e refinado, não obterá grande coisa. Os pedaços menores, escondidos no interior, são ainda mais puros. Aliás, há melhores cristais no interior, ali onde não pode vê-los.

Aprenda com o sr. Nishi: busque a joia preciosa escondida dentro de você.

Um sonho que eu sinto a necessidade urgente de realizar no futuro é o de visitar a cidade em que se passa esse filme, New Tama Town. Tenho certeza que cairia em lágrimas só de pensar que estaria andando pelos mesmos passos da Shizuku, olhando para os lados e reconhecendo os locais de uma cidade que estarei visitando pela primeira vez.


                            

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se eu tenho uma inspiração que levarei para o resto da minha vida, essa inspiração é o Sussurros do Coração. Uma animação que faz literalmente o que o título diz e que por isso sempre terá um espaço enorme dentro do meu coração. Todas essas palavras que escrevi ainda não são suficientes para expressar minha gratidão a esta obra que mudou a direção da minha vida da escuridão da insegurança para o nascer do sol da positividade, mas não poderia deixar o aniversário de 20 anos dessa obra-prima da animação passar despercebido. Se antes tudo para mim eram maus presságios, agora apenas o que vejo à minha frente são tempos auspiciosos.




Que a masterpiece de Yoshifumi Kondō e do Studio Ghibli continue a encantar e inspirar todos aqueles que gostam de se expressar através de qualquer tipo de arte, seja através da música, da escrita, do desenho... Esse é um trabalho atemporal que nunca irá envelhecer devido ao amor que a equipe de produção depositou nela e que foi absorvido pela minha pessoa da melhor maneira possível.




-por Vinicius "vini64" Pires

Leia também meus outros artigos de animações:
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Andressa Caroline disse...

Procurando uma animação que me cativasse , encontrei essa tocante obra . No começo achei que se tratava de apenas um romance entre jovens , o que me surpreendeu totalmente. Ao comentar com uma amiga sobre o filme, me faltou palavras para descrevê-lo , estas que estão presentes em seu artigo e, não haveria melhor forma de usá-las.
Foi a mais profunda e simples -de um modo bom- análise que já li sobre uma animação , trazendo por meio de palavras os sentimentos que aqueles que assistem pela primeira ou milésima vez, sentem ao ver Whisper of the Heart.
Deu até uma vontade de rever agora!haha.