domingo, 22 de maio de 2016

A Garota Que Saltava No Tempo



Olá, pessoas, como vão? Aqui está bem frio hoje, e é por este motivo que decidi pegar minha coberta e escrever este artigo sobre um diretor de animações que considero quase no mesmo nível que Hayao Miyazaki e Isao Takahata do Studio Ghibli. Seu nome é Mamoru Hosoda. Como o nome já indica, ele é japonês (ah vá) e já trabalhou como animador em séries famosas como Dragon Ball, Digimon e One Piece, tanto que seus primeiros trabalhos diretoriais foram longas-metragens dessas séries. Hosoda tinha até sido escolhido para dirigir a famosa produção O Castelo Animado do Studio Ghibli, mas fontes indicam que falhou em criar um conceito digno aos padrões de estúdio. É gente, trabalhar no estúdio do Miyazaki não é moleza não.

Contudo, essa possível frustração em sua carreira possibilitou a execução de seu primeiro trabalho como diretor de verdade, ao poder exercer maior liberdade criativa, em um filme chamado A Garota Que Saltava No Tempo. Lançada em 2006 pela Madhouse (estúdio que produz BILHÕES de animes), a produção é uma adaptação/sequência espiritual de um romance japonês do mesmo nome, o qual conta a história de uma garota com a habilidade de dar saltos temporais que a permitem viajar no tempo.


PERSONAGENS 

Mais do que a história, acredito que o elemento que mais cativa a pessoa em uma produção audiovisual são os seus personagens. De que adianta uma história magnífica se os seus personagens são desinteressantes? Por sorte, este não é o caso deste filme, já que todas as figuras dele são muito bem desenvolvidas, todas únicas e com características marcantes.

A titular garota que salta no tempo se chama Makoto, uma estudante de colegial meio doidinha que adora jogar beisebol com seus melhores amigos e passar o tempo se divertindo, sem ligar muito pros estudos e pro seu futuro. Super carismática e divertida, é uma protagonista que não tem como você não adorar, especialmente por causa da risada dela e de seu sorriso otimista. É meio boba também, mas vai dizer que todos nós não éramos em nosso tempo de colegial?



Um dos melhores amigos dela é o Chiaki, um ruivo magricelo que tenta parecer descolado e não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Parece até que ele tá deslocado no tempo... O outro é o Kousuke, o único cara decidido do grupo, que, apesar de sempre estar jogando beisebol e acompanhando seus amigos nos lugares, também divide seu tempo com os estudos e já está certo do que quer para o seu futuro. Parece um trio meio esquisito, né? Mas a produção não falha em nos mostrar como a amizade desses três é bem verdadeira. Conseguimos até imaginar eles daqui alguns anos, ainda juntos.


Os personagens secundários também são muito bem estruturados, desde a tia da Makoto, chamada de “tia bruxa”, a quem a menina confia o seu segredo de que pode viajar no tempo e recebe conselhos ambíguos em troca; as amigas da escola com suas diversas personalidades; e a irmã da protagonista, que, apesar de aparecer bem pouco, deixa eternizada a sua marca no filme com uma pergunta que ressoa até os confins do universo:


Mas uma coisa que o roteiro arquiteta de maneira magistral é a relação entre estes personagens, especialmente na questão de relacionamentos amorosos, afinal, isso é o que mais acontece na vida colegial. Tudo que é mostrado parece muito natural e realista, nunca superficial e forçado, como nos animes clichêzões do gênero slice of life.


Temos o grupo de três garotas onde uma é super tímida e precisa da ajuda de suas amigas para fazer o trabalho de falar com o garoto que está afim, mesmo dizendo que elas não precisam fazer isso; tem a amiga da Makoto que gosta do Chiaki e fica perguntando sobre a vida dele, mas nunca revelando que o curte; e tem aquela relação de dois grandes amigos que se curtem, mas que a garota não percebe até que seja submetida ÀQUELA pergunta e que continua negando para si própria mesmo após isso, apesar de saber que, no fundo, o sentimento é mútuo.

ARTE


Um dos motivos para eu gostar dos filmes do Hosoda tanto quanto os do Studio Ghibli se deve ao departamento de arte, que não deixa nada a desejar se for comparar com os filmes do Miyazaki e cia, com uma animação fluída e desenhos bem detalhados, especialmente os de background (cenário). Talvez seja porque a equipe tem alguns nomes que já trabalharam em produções Ghibli, como o Kazuo Oga, responsável pelo trabalho magnífico de aquarela nos cenários de Meu Amigo Totoro (confira meu review), Sussurros do Coração (confira meu review), Only Yesterday, entre muitas outras.

A casa de Makoto. Pintura por Kazuo Oga.

Um aspecto diferente das animações deste diretor é a maneira como os personagens se movimentam e se expressam. Nos trabalhos do Studio Ghibli, é raro vermos movimentações que fujam muito da anatomia humana, como braços e pernas alcançando distâncias muito longas, além das expressões faciais nunca serem tão exageradas como na maioria dos animes. Já os filmes do Hosoda fazem uso de todos estes atributos de movimentação e expressão, o que não chega a diminuir seu trabalho, até porque nem toda animação deve ser igual às do Studio Ghibli para que sejam boas, cada um tem seu estilo. 

Quanto à trilha sonora, não tenho muito o que falar, pois, sinceramente, não é tão memorável. As músicas combinam com o filme, mas não tem nenhuma composição que se destaque e que te faça pesquisar a trilha sonora na internet. Tem uma musiquinha legalzinha que fica na sua cabeça, uma que toca no começo quando ela vai pra escola, mas nada de mais.


VALOR HUMANO

Quem lê a premissa da produção pensa “mais um filme de time travel, eh? Até em animações isso?”, mas A Garota Que Saltava No Tempo vai muito além de um simples filme de time travel. Sabe por quê? Porque nenhum filme/série de viagem no tempo é simples. Pare para pensar - todos eles tentam fazer uma história complexa girando em torno de mudanças graves no passado, em como o protagonista vai fazer para sair do tempo em que ficou preso, em mostrar como o futuro é todo high-tec e diferente do presente, etc. Poderiam estes ser considerados simples? Em minha opinião não, pois a verdadeira simplicidade está no filme que vos falo neste artigo.

Um carro ou uma caixa telefônica? Não, Makoto viaja no tempo com o próprio corpo.

Enquanto a maioria dos filmes de viagem no tempo tratam dos exemplos que mencionei no parágrafo anterior, este aqui é sobre uma garota que fica voltando no tempo para consertar besteirinhas que acontecem em seu dia-a-dia. A irmã dela comeu seu pudim? Volta no tempo e come antes dela. Derrubou um alface dentro de uma panela de fritura? Volta no tempo e deixa outra pessoa derrubar a verdura. O tempo do karaokê acaba muito rápido? Volta no tempo e fica o quanto quiser no karaokê. Seu melhor amigo está se declarando para você? Volta no temp....ih cacete, e agora?



Aí que entra o conflito do filme, um que muitos já devem ter passado. Já imaginou se você pudesse evitar aquele momento que o seu amigo(a) revela que está afim de ti, depois dele acontecer? A Makoto pode. Mas....não seria isso uma decisão egocêntrica, ignorar os sentimentos de uma pessoa porque não te deixam confortável? Aliás, efetuar mudanças no tempo que VOCÊ acha que devem ser feitas, como apressar a relação do seu amigo com uma garota, não seriam prejudiciais? Uma simples mudança no tempo pode mudar a cadeia de acontecimentos para coisas muito piores, apesar de no início não parecer.

O tempo não espera por ninguém, Makoto.


Se algo tem que acontecer, vai acontecer. Se não tem, não vai. É assim que funciona a vida. Ela é feita de alegrias e decepções. Se tivéssemos o poder de fixar os nossos erros assim como a Makoto, é certo que estaríamos transformando as nossas vidas e a daqueles que amamos em uma roleta russa, possivelmente adiantando a ruína de um e adiando a de outro. Por isso que é necessário deixar o tempo fluir de maneira natural, mesmo que seja torturante para alguns. Pense em como suas ações podem afetar a vida dos outros, por mais que isso não seja aparente à primeira vista.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


O primeiro trabalho diretorial deste grande diretor que é Mamoru Hosoda é uma obra que se destaca em meio aos filmes de viagem temporal por tratar de maneira realista temas que dizem respeito às nossas atitudes e relações, ao mesmo tempo que é uma animação divertida, cheia de carisma e visualmente estonteante que não te deixará entediado um segundo sequer.




-por Vinicius "vini64" Pires

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